domingo, 5 de novembro de 2017

O Urban. O Urban Beach



Acho que, inicialmente, aquilo que me serviu de motivação para escrever o que quer que fosse que não houvesse sido já referido, teve que ver com o seguinte: saio à noite há cerca de 20 anos e quase sempre sem tocar em álcool. Mas mais que partilhar qualquer "maratona de sobriedade pela noite lisboeta", acho que falta dizer meia dúzia de coisas.

Sobre as acusações de racismo
Quase todos os artigos que li sobre o tema parecem ter sido escritos por pessoas que nunca saíram à noite. A gestão de clientes levada a cabo à entrada de bares e discotecas (em Portugal e um pouco por esse mundo fora) é feita segundo critérios de "selecção" que, chamemos-lhe aquilo que lhes preferirmos chamar, não passa de um termo socialmente aceite para aquilo que outros apelidariam de "discriminação". Mas sejamos francos: quando nos deslocamos a um dado espaço esperamos encontrar um dado ambiente que é definido, mais que por qualquer outra coisa, pela aparência daqueles que lá estão. Fica complicado levar demasiado a sério acusações de discriminação quando quase todos aceitámos e promovemos, na medida do nosso próprio sucesso à porta duma discoteca, que cada lugar estabelecesse um ideal-tipo de clientela baseado estritamente na sua aparência. Não posso afirmar categoricamente que a gerência do Urban Beach é muito ou pouco racista e arrisco a dizer que, em 2017, e até ao seu encerramento, era possível encontrar mais “não brancos” no Urban do que aqueles que poderia encontrar em 2007 no Kubo ou em 1997 na Kapital. Por um motivo relativamente óbvio: o Portugal de 2017 é, ainda assim, um lugar menos racista do que era em 2007, e ainda menos que em 1997. O Observador (que, justiça lhe seja feita, teve um papel importante em todo este processo) publicou um artigo cujo título brilhava com a citação de um antigo porteiro do Urban Beach: “Pretos, é difícil. Ciganos não entram”. Infelizmente, isso não é motivo suficiente para me sentir no direito de acusar a gerência do Grupo K de ser, com maior ou menor incidência, aquilo que a maioria da população nacional é: um tanto ou quanto racista. Porque qualquer coisa parecida com “pretos não sei, ciganos nem pensar” é bastante representativo do que tantos portugueses sentem relativamente àqueles a quem permitem entrar em sua casa ou conviver com os seus filhos. Em caso de dúvida sugiro a consulta do termo "cigano" no nosso dicionário para moderarmos todos a autoridade moral com que chamamos racista a alguém. Dito isto... A selecção levada a cabo à porta do Urban agrada a quem lá vai. E ao que parece, vai lá muita gente. Menos de 48 horas depois do vídeo que exibia aquelas agressões brutais ter sido gravado e pouco mais de 24h depois de ter sido partilhado um pouco por todo o lado... quantas pessoas estavam no Urban Beach no momento em que foi encerrado pelas autoridades?

Sobre a conduta dos seguranças
Uma vez no Lux um segurança disse-me o seguinte: “na minha vida pessoal não repito as coisas quatro vezes, aqui pagam-me para dizer as coisas quatro vezes à mesma pessoa”. Esta observação diz muito sobre a forma como somos tratados num dado estabelecimento e sobre os motivos pelos quais esse tratamento é mais frio, caloroso, inflexível ou tolerante. Ela vai ao encontro de algo muito fácil de se entender: a forma como os seguranças de uma discoteca (ou se fizerem muita questão... a forma como os funcionários de uma empresa de segurança contratada por uma dada discoteca) se dirigem aos clientes dessa mesma discoteca é definida, como é óbvio, pela própria discoteca. Todos sabemos que o álcool, rivalidades parvas, disputas amorosas e outras tantas coisas podem fazer duma pista de dança um lugar tenso. Sabemos também que a maior parte de nós é menos civilizado e paciente depois de beber quatro vodkas ou sete cervejas. E que os seguranças das discotecas (ou se continuarem a fazer questão... das empresas de segurança que trabalham nas discotecas) lidam diariamente com clientes complicados. Por essas e por outras é que existe uma certificação para o exercício das suas funções. Mas sejamos muito claros: o argumento de que a agressividade dos seguranças que estão ao serviço no Urban Beach é responsabilidade da PSG é absolutamente delirante. A administração do Grupo K tem, como qualquer outra agremiação, uma dada cultura organizacional. Dizer que as opções que dela resultam não se traduzem na escolha dos seguranças que lá exercem funções, na mensagem que lhes é transmitida e no tipo de interacção que estes homens promovem com a sua clientela, é a mais profunda manifestação de desonestidade intelectual.

Sobre a Kapital
Não há outra forma de pôr as coisas. A Kapital foi, durante quase 10 anos, o sítio mais aspiracional da noite lisboeta. Ainda me lembro da primeira vez que lá entrei. Mas também não me esqueci da primeira vez que, por culpa de um episódio aparentemente irrelevante, me pareceu que algo de errado se passava ali. O porteiro, que teria ido até ao interior da discoteca, descia uma escadaria quase vazia quando empurrou um amigo meu porque, tão simples quanto isto, ele se encontrava na trajectória mais curta da sua descida. Acabei por testemunhar, repetidamente, seguranças a dirigirem-se de forma agressiva aos clientes sem qualquer motivo aparente. Mas sejamos sinceros: não observei nada na Kapital que não tivesse visto em outros estabelecimentos.

Sobre o Kubo
O Kubo era um espaço junto ao Rio, a uma caminhada curta do local onde se encontra hoje o Urban Beach. Basicamente era um conjunto de caixotes justapostos e sobrepostos que, verdade seja dita, pela sua disposição, decoração e iluminação, faziam um dos espaços mais bonitos de Lisboa. Mas foi lá que fiquei com a sensação que as noites passadas em sítios geridos pelo Grupo K podiam ser perigosas. Lembro-me de uma noite ter visto um segurança a empurrar clientes de forma agressiva sem razão aparente. Uma rapariga, provavelmente pouco habituada a ser atropelada no seu dia-a-dia, reclamou com o funcionário da discoteca. Ele recuou até junto dela e intimidou-a com um movimento brusco e uma frase que já não sou capaz de recordar. Claro que quando se vê um segurança dirigir-se a uma mulher desta forma fica-se com a sensação que ali algo de grave pode acontecer a um homem. Num outro dia, quando estava de saída, vi um segurança esmurrar um cliente. Não foi a primeira vez que assisti a um murro à porta de uma discoteca e cabe-me reconhecer que - entre esses episódios infelizes - a culpa não foi sempre da exclusiva responsabilidade das equipas de segurança. Mas acho que, numa dada consciência colectiva, nos habituámos a aceitar estes "azares alheios" com excessiva condescendência.

Sobre o Urban Beach
O Urban Beach acabou por atrair uma clientela mais jovem que os seus antecessores Kapital e Kubo (o Kremlin tinha um posicionamento diferente: a música era mais pesada e o ambiente menos convencional). Isto também se deveu, em boa parte, à afirmação do Lux como discoteca de referência. Curiosamente, uma das coisas que sempre diferenciou o Lux de todas as outras discotecas foi a urbanidade com que, de forma geral, o seu staff trata os clientes. Em rigor, foi talvez a primeira discoteca onde terei sentido que os seguranças estavam ali, verdadeiramente e como o nome sugere, para assegurar a minha segurança (e onde, em 20 anos de visitas assíduas, nunca vi um murro ou um pontapé). Mas voltando ao Urban: tive a percepção que naquele espaço do Grupo K os seguranças pareciam ser ainda mais agressivos que na generalidade das discotecas. Uma noite, a propósito duma abordagem completamente desapropriada de um segurança, disse ao Gonçalo Rocha que achava que ali se maltratavam os clientes indiscriminadamente. Respondeu-me, meio sorridente, que talvez eu tivesse preconceitos em relação ao Urban. Torna-se difícil, alguns anos depois, recordar com precisão os episódios ou comportamentos mais duvidosos. Não tinha chegado a ver ninguém do staff desferir murros ou pontapés mas, por culpa de algumas reacções, e de uma ou outra narrativa, sentia que seria apenas uma questão de tempo. Até que uma noite, o tempo chegou. A narração que se segue é um excerto exacto (inclusive, com alguns erros de sintaxe) de um e-mail que enviei, na madrugada do dia 6 de Abril de 2015, à então Vereadora da Educação, Economia, Inovação e Descentralização, Graça Fonseca (actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa), a propósito de uma deslocação até ao Urban Beach, no fim-de-semana anterior. Muito mais que qualquer recriminação da ex-autarca por qualquer hipotética inação (que não teria como provar e, como tal, não me permito sequer sugerir) este é um esforço por me reportar aos factos na forma mais exacta que me é possível. Sem a leitura deste e-mail, guardaria daquela noite pouco mais que recordações vagas. Posso assegurar-vos apenas que, à data que escrevi este relato, os factos estavam absolutamente claros na minha memória. Desde aí, nunca mais voltei a um espaço do Grupo K.

(...) Quando chegava à entrada (ainda numa zona exterior ao recinto mas pertencente já, por assim dizer à área do edifício) estavam duas ou três pessoas (acho que eram dois homens e uma mulher) a ser expulsos/convidados a sair. Percebi que um dos tipos que estava a ser posto fora estava bebido e parecia provocar os seguranças (aquela coisa adolescente do "bate lá então"). 

Aparentemente os seguranças não ficaram contentes com o desempenho das suas funções (convidando a sair alguém que supostamente não mereceria ter entrado ou permanecer lá dentro) e foram ao encontro do tipo (uns 4 ou 5 diria eu). Vi um dos seguranças pontapear o turista na cabeça - acho que houve dois deles que lhe bateram - e poucos momentos depois estava um segurança deitado sobre o turista a asfixiá-lo (sim... isso mesmo.. a asfixiá-lo). Eu eu outro amigo - vendo aquela barbárie - aproximámos-nos e dissemos aquilo que qualquer duas pessoas com o mais elementar bom senso deveriam sentar-se tentadas a dizer. Perante os "parem com isso por favor", "não é necessário", "deixem-no ir" ou "a vossa função é precisamente evitar situações como esta" o meu amigo foi insultado e foi ainda ameaçado porque, aparentemente, algum(ns) segurança(s) pensavam que havia filmado a cena. Frases do género "vê a minha cara que eu não me esqueço da tua porque se o vídeo é publicado vais-me ver outra vez", houve ainda outro segurança que lhe pediu o telemóvel para se certificar que nada tinha sido filmado. Tudo isto num ambiente de raiva perante esta nossa atitude de censura daquele comportamento (...)

A preocupação dos seguranças com um vídeo não era fruto da sua capacidade de antecipar o que veio a acontecer dois anos e meio depois. Era apenas uma reacção ao que havia sido publicado duas semanas antes pelo Público: as imagens mostravam um segurança em funções a espancar repetidamente (a dada altura com a colaboração de um outro indivíduo) um homem, aparentemente bêbado e indefeso, na Rua Cor-de-Rosa, no Cais Sodré. Naquela noite houve duas coisas que se tornaram claras. A primeira: que os seguranças do Urban Beach não tinham qualquer problema em aplicar a força extrema quando qualquer dose de força não era já necessária (assumindo que em algum momento, algum tipo de força tivesse sido justificada). E isto não é uma consideração subjectiva. Estamos a falar dum turista, claramente alcoolizado, de passada titubeante, que o casal amigo estava a conseguir afastar da porta do Urban. A segunda: ainda mais assustadora. O total sentimento de impunidade dos agressores. Aqueles homens agiram sem contenção, hesitação ou reflexão. Aqueles homens, claramente treinados, actuaram em grupo contra um indivíduo que parte da população masculina teria facilidade em derrubar sem a ajuda de outra pessoa. A impunidade foi tal que, à semelhança das imagens que tivemos o desprazer de ver esta semana, aqueles homens bateram e insultaram diante de uma plateia, no (suposto) exercício das suas funções. Havia dezenas de pessoas a assistir. Apenas um amigo e eu nos insurgimos. Ninguém na fila, em pleno ano de 2015 e nesta tão cosmopolita Lisboa, perdeu vontade de entrar na discoteca cujos seguranças acabavam de agredir de forma devastadora, um homem, bêbado e trémulo, pontapeado e atirado ao chão, prostrado física e psicologicamente, desrespeitado na sua mais elementar dignidade, vítima duma asfixia desnecessária e absolutamente bárbara. Naquele noite fui para casa com a sensação que, ao contrário do que disse ontem o advogado de um dos seguranças a propósito daquele vídeo  [e passo a citar com total exactidão, (...) Foi um dia mau... foi um dia mau p'ro meu cliente. Um dia mau na vida dele. Apenas isso (...)], havia testemunhado apenas "mais uma noite na vida daqueles homens". É por isso que quando leio todos os depoimentos disponíveis na internet não só os acho coerentes, como bastante verosímeis. É também por isso que acho que o Eduardo Cabrita, o recém-nomeado Ministro da Administração Interna (que, sou obrigado a reconhecer, não poderia ter actuado de forma mais imediata; o mesmo não se podendo dizer da autarquia e da forças policiais), deveria ter algum pudor em dizer que “não faz sentido sequer colocar essa questão” quando lhe perguntam porque nada havia sido feito depois das (38) queixas existentes. Talvez se fosse um filho, sobrinho ou neto seu a apanhar pontapés na cabeça o ministro tivesse expressado uma opinião diferente. Talvez se os agentes da PSP não parecessem desincentivar (como sugerem alguns depoimentos à imprensa) os jovens agredidos a apresentar queixa, elas não fossem “apenas” 38. Talvez se a queixa referente ao episódio retratado no vídeo, houvesse sido registada antes que tivéssemos podido aceder às imagens, nos sentíssemos todos em melhores mãos. Talvez a gerência do Urban Beach e a administração do Grupo K tenham alguma responsabilidade nestes sucessivos espancamentos. E talvez o Gonçalo Rocha tenha razão, talvez eu tenha alguns preconceitos acerca do Urban. Mas não consigo deixar de pensar que... O único motivo que permite ao Urban Beach continuar a fazer dinheiro com as mesmas pessoas que parece disposto a maltratar, é a falta de solidariedade e consciência cívica de todos aqueles que, não tendo levado nunca pontapés na cara, continuam a ir ali sabendo que, naquela mesma noite e naquele mesmo lugar, é possível que uma cara com a qual se cruzem apanhe os ditos pontapés. A violência extrema que descobrimos naquelas imagens, não é explicada por um acesso de raiva único e irreproduzível. É a expressão de quem parece habituado a resolver os problemas à sua maneira. A falta de pudor com que se bate em público, é um esboço daquilo que se é capaz de fazer em privado. O sentimento de impunidade que aqueles homens exibem, sugere um historial pelo qual ninguém lhes terá exigido contas. Serve apenas de consolo a lição de que apresentar queixa não é afinal uma tareda inútil. Ou acham mesmo que a divulgação isolada daquele vídeo, por mais selvagens que fossem os actos nele reproduzidos, teria conduzido ao encerramento do Urban Beach?

Obrigado a todos aqueles que, revelando coragem e responsabilidade cívica, apresentaram queixa. Há quem não tenha sequer a dignidade de, perante um espancamento completamente bárbaro e desnecessário, abandonar a fila e escolher outro sítio para dançar

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Incêndios 2.0



Lembram-se o que jornalistas e colunistas de todo o mundo ocidental, escreveram vezes sem conta, depois da vitória de Donald Trump? Que aqueles votos vinham da América profunda e que o grosso dos eleitores das grandes metrópoles jamais teria votado nele? Ninguém o disse categoricamente mas não consegui imaginar outro entendimento que não este: a opinião da população urbana importa mais que a da rural. Será que a vida de quem está na capital também vale mais que a de quem habita o interior? Ou por outra, será que estamos genuinamente preocupados com cada uma das vítimas dos incêndios? Ou sentimos apenas que 40 mais 60 são 100 e que – foda-se... – 100 é um número demasiado grande para olhar para o outro lado? As vítimas (mortos, feridos, desalojados, traumatizados) de Figueiró a Santa Comba têm pouca ou nenhuma voz. Não foram as mortes mas os números totais que elas perfizeram que tocaram o coração do país, geraram as ondas de solidariedade e cativaram os media. Porque estas pessoas – as que morreram agora, as que morreram em Verões passados e aquelas que vão morrer nos próximos anos – são quase sempre as mesmas: bombeiros e velhotes. Reportagens em Pedrógão mostram-nos idosos chorosos, às vezes ranhosos, desprovidos de capacidade de mobilização, destreza verbal ou telegenia. Será que sentimos realmente por eles? Será que sentimos por aqueles que, mais ou menos velhos, morreram em casa, nos carros, na rua, asfixiados e queimados? E por todos aqueles a quem, sobrevivendo, só restou chorar por quem já não puderam abraçar? À excepção do impacto brutal que uma centena de vítimas tem sobre todos, cada uma daquelas mortes pouco importa. Não geram por si mesmo dislikes, partilhas e notícias em escala que ponham um governo ou uma opinião pública em sentido. Onde é que está o Estado Social? No Facebook? E o nosso coração? A nossa formação, educação e cultura? No meu liceu havia dois bombeiros. Dois miúdos que costumavam ir fardados para a escola porque faziam parte do Regimento de Voluntários que havia ali ao lado. A farda não lhes granjeava reputação ou miúdas giras. Eram, na verdade... menos-cool-que-os-demais. Até Agosto de 2013, quando morreram 8 bombeiros em Agosto e foram aclamados heróis nacionais, o país inteiro parecia também... dar-lhes menos valor que aos demais.

Tinha cagado no Orçamento, no Sócrates e na Catalunha. Mas também eu fui sensível... aos números. Se os actores políticos (independentemente da sua cor) trabalhassem em função de outra coisa que não votos, talvez António Costa tivesse dito (e sentido o que disse) “depois deste ano nada pode ficar como dantes” em 2005 quando, Ministro (de Estado e) da Administração Interna, se registaram mais de 8.000 incêndios florestais, quase 350.000 hectares ardidos e 16 mortos (12 dos quais bombeiros). Mas se calhar nenhum de nós lhe exigiu isso. Se calhar nenhum de nós se esforçou, como aparentemente se estão a esforçar na Galiza, para lhe exigir isso mesmo

domingo, 6 de agosto de 2017

domingo, 21 de maio de 2017

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

domingo, 6 de setembro de 2015

Martina

Martina


A jornalista pediu-me que levasse a máquina fotográfica. Perguntou se me podiam filmar a fotografar alguém. Disse que sim que não me importava. Disse que sim que me podiam filmar. Mas disse também que podíamos dar uma volta, duas ou três, as voltas que o tempo permitisse mas que isso não lhe garantia qualquer imagem. O tempo passou. Tinha que partir e foi já nas despedidas que a Martina se cruzou connosco. Assim nasceu esta imagem. A jornalista e eu ficámos contentes. Espero que vocês e a Martina também

domingo, 12 de julho de 2015

Manuel Dantas

Manuel Dantas


Quando nos lembramos de começar a fotografar gente na rua. Quando nos propomos a retratar pessoas que nos despertam a atenção. Quando começamos a guardar e partilhar essas imagens que nos fazem parar, olhar para o outro lado ou espreitar por cima do ombro. Quando fazemos tudo isto há um momento – ele acabará por chegar mais tarde ou mais cedo – em que sentimos que já pouco ou nada conseguimos acrescentar de novo. E depois há o Dantas, o Manuel Dantas. Aquele homem que, quando nos preparamos para dar o mergulho possível entre as rochas da Praia da Luz, nos pergunta “podes-me ajudar a vestir isto?”. E a quem eu pergunto, “e eu posso tirar-lhe uma foto?”. O Dantas sim. Depois de seis anos a abordar estranhos e a publicar a sua imagem na internet o Dantas representa algo especial. Algo de novo

domingo, 31 de maio de 2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

Praia da Mareta

Praia da Mareta

Uma das coisas mais giras de ter um blogue onde se partilha o que quer que seja que nos rodeia é que, por cada vez que nos deslocamos, a nossa publicação se desloca também. Porque o que quer que aqui se partilhe acaba sempre por levar também muito dos nossos dias, das nossas vivências e das nossas recordações. A Praia da Mareta é apenas um desses muitos sítios. Um tanto ou quanto inusitado para uma publicação à qual me habituei a ouvir chamar de “blogue de moda” mas, na verdade, o mais óbvio dos sítios para aquilo que não é mais que uma página pessoal. E é por isso que quando publico uma foto da Mareta estou a fazer mais que partilhar uma imagem bonita de uma pessoa inspiradora. Estou também a documentar aquilo que é a minha vida, a minha (segunda) juventude e aqueles que me são próximos. E dou-me agora conta, com todo esta conversa, que não fotografava aqui há cinco anos. Desde 2010. Desde que fotografei o Bernardo, o Vitório e estes miúdos cujos nomes não me lembro. E no fundo ao publicar esta foto estou, mais que a partilhar o que quer que seja, a documentar a minha memoria futura. Que é como quem diz, a assegurar que um dia mais tarde ela não se me varre das recordações

terça-feira, 24 de março de 2015

Alexandre

Alexandre Rapaz 1 Alexandre Rapaz 2 Alexandre Rapaz 3 Alexandre Rapaz 4 Alexandre Rapaz 5 Alexandre Rapaz 6 Alexandre Rapaz 7 Alexandre Rapaz 8

Não fotografo com a mesma frequência. Porque é raro sair de casa com a máquina na mão mas também porque, das raras vezes que o faço, pareço necessitar de mais motivos para abordar alguém. Nenhum motivo em concreto. Ou pelo menos nenhum que me ocorra especificar. Se bem que agora parece fácil. A imagem do Alexandre na sua bicicleta a rolar sobre uma superfície grafitada com a Vasco da Gama em pano de fundo. Foi esse o motivo

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Faz hoje meia dúzia de anos que publiquei aqui a primeira foto


Este Verão descobri que o 31 de Agosto é o dia mundial do blogue. Daquilo que li e ouvi percebi duas coisas. A primeira é que boa parte do interesse que os media descobrem nos blogues é por via da criação, por parte dos chamados famosos, das suas páginas pessoais (assumindo sequer, pese embora a irrelevância que essa questão representa para mim, que terá sentido chamar de “blogue ou página pessoal” a algo que, pelo que percebi, nem sempre é gerido pela própria pessoa). A segunda, que me importa bastante mais, é que o único foco ou interesse que foi atribuído à blogosfera é aquele que aparece pela via comercial. O Alfaiate faz hoje 6 anos. E uma das coisas que mais me orgulho (que não faz de mim melhor nem pior, faz-me apenas sentir bem com isso) é que a abordagem editorial deste blogue foi sempre a mesma. Viessem cá 10, 100, 1 000 ou 10 000 pessoas por dia. E é isso que digo sempre que alguém me “acusa” de esquecer este blogue. Digo que é impossível estar esquecido. Que (quase) tudo o que conquistei profissionalmente na última meia dúzia de anos decorre directa ou indirectamente daquilo que fiz aqui e do que aqui foi feito me permitiu fazer noutros sítios. Mas voltando a 31 de Agosto... Hoje, sobre os blogues, parece importar apenas o retorno que geram a quem pague para ter lá os seus produtos ou serviços. E não, não me faz confusão alguma que se ganhe dinheiro com um blogue (até porque fiquei bastante contente da primeira vez que isso me aconteceu). Nem mesmo que se ganhe dinheiro com os conteúdos de um blogue (ainda que, por opção pessoal, sempre me tenha recusado a fazê-lo). Mas faz-me confusão que se ganhe dinheiro com um blogue falando com as pessoas como se se tivesse acordado uma manhã a pensar num produto ou serviço quando na verdade se foi despertado por um e-mail ao qual se respondeu com um orçamento. Faz-me confusão que se passe por cima (ou pelo menos foi isso que senti que os media fizeram) de tudo aquilo que – na minha cabeça – é afinal um blogue. Gosto de pensar que se entrasse num blogue de menswear encontraria as marcas ou produtos que mais inspiram o seu autor e não aquelas que entenderam dispensar-lhe parte do orçamento. Que se procuro um apaixonado por viagens ele me vai sugerir os insights mais genuínos sobre um local e não o hotel que oferece uma estadia anual à sua família. Talvez me bastasse avistar alguma coisa que identificasse, de alguma forma, as publicações contratadas  porque - apesar de absolutamente elementar - não parece estar claro para muitas das referências cibernáuticas que aquilo que alguém se dispõe a pagar-lhes não é um conteúdo editorial (admitindo que, alguma coisa de editorial um conteúdo dessa natureza possa ter). Talvez me bastasse pensar que um blogue ainda é, mais que outra coisa qualquer, um espaço onde determinada pessoa publica aquilo que pensa ou em que mais acredita. Talvez me bastasse saber que, quando a natureza de um artigo é comercial, essa informação é dada ao leitor (reconhecendo que orçamentos e transferências bancárias não são necessariamente mutuamente exclusivos da simpatia pessoal que alguém que está a ser pago possa, por hipótese, nutrir genuinamente por determinado produto ou serviço). Ou será que o futuro, se me permitem a caricatura, é visitar um blogue assinado por um político de direita e ler um artigo que lhe foi encomendado por um partido de esquerda (ou vice-versa)? É que o presente passa já por assistir a que se digam maravilhas sobre o que quer que seja porque, chamando às coisas aquilo pelas quais elas pedem para ser chamadas, houve lugar a um pagamento. Não sou o Velho do Restelo nem os blogues têm que permanecer como nasceram, estáticos e imutáveis, ao sabor da minha vontade. E posso até aceitar, apesar de lhe reconhecer pouca dignidade, a tese de que cada um faz o que quer e bem lhe apetece no seu próprio espaço. Gosto apenas de pensar que a verdade e o respeito pelo próximo (ainda mais por aquele que nos lê) são tendências intemporais, não importa o ano nem a estação. É espectacular e tremendamente inspirador pensar numa dada plataforma onde eu ou outro qualquer Zé ninguém possa publicar de forma livre e gratuita o que quer que seja e (se for o caso), com os seus méritos e deméritos, conquistar uma legião de seguidores, passar a escrever para ali, a fotografar para acolá ou a fazer para o resto do mundo o que quer que seja que o seu blogue atestou que realizava ou executava de forma tão singular. Mas não me parece correcto mentir às pessoas. E menos correcto ainda (tal é o surrealismo moral da coisa) me parece mentir a quem nos segue e que, precisamente por o fazer, é responsável pelo nosso sucesso, mudança de vida ou o que quer que determinado blogue tenha feito pela biografia do seu autor. Por aqui não se preocupem. Censurem-me as vezes que acharem necessário por cá vir menos do que devia. Mas retenham o seguinte: como há exactamente 6 anos ou no dia que aqui vieram pela primeira vez... e para o bem e para o mal... por aqui está tudo na mesma

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Disse-lhes:

_W2C1486

- Não estou aqui para fotografar mas vou fazer esta foto

segunda-feira, 19 de maio de 2014

segunda-feira, 28 de abril de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pitti Uomo (Michael, day-by-day)

Michael day 1
Michael day 2
Michael day 3
Michael day 4

Fui pela 1ª vez à Pitti Uomo. Uma marca pediu-me que fizesse imagens de toda aquela ambiência. A feira é brutal, há marcas interessantíssimas e visitantes também. Mas confesso que me senti esmagado por tantas câmaras, lentes e fotografias. De tal forma que tudo o que menos me apetecia fazer ali era fotografar alguém. Como se tudo aquilo estivesse, algures, nos precisos antípodas de momentos como este ou aquele. Como se tudo aquilo desconhecesse que é possível, de verdade, encontrar gente inspiradora no mais inusitado dos espaços. Num qualquer local do mundo onde quem quer que abordemos estranhe verdadeiramente o nosso pedido. Chegue até a desconfiar dele. Mas que depois de 30 segundos de conversa e um sorriso genuíno acabe a deixar-se fotografar por um estranho. Quando vi o Michael junto aquelas escadas achei que era das poucas imagens que poderiam ter sido tiradas fora daquela confusão, de todo aquele bulício, de toda aquela feira de vaidades com pêlos na cara. E quando, no dia seguinte, o vi ali outra vez, percebi que havia ainda outros dois momentos a registar e disse-lhe:
      Acredito que seja difícil de acreditar mas... as tuas fotografias são as únicas que quero para mim.
Apenas ele, em cada um dos dias que a feira existiu. Sem pompa, circunstância nem a mais leve edição. Sem esperar sequer que desocupassem a escada. Apenas ele, nas escadarias que o conduziam ao stand da marca da qual faz parte

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

5 anos


Todos os anos neste dia, ao acordar, puxo o portátil para o meu colo e venho aqui dizer-vos porque é que esta página é tão importante para mim. Não vos consigo explicar porque raio o adágio que decreta que não devemos deixar para amanhã aquilo que pode ser iniciado hoje mesmo não se aplica aqui e porque seria desprovido de sentido para mim ter começado a preparar este texto ontem, antes da data exacta, para assim me assegurar que hoje de manhã me limitaria a tentar eliminar todos os pequenos obstáculos ao seu melhor fluxo que escapam sempre numa primeira abordagem ao quer que se escreva. Não vos consigo explicar porque é que sabia perfeitamente que não precisaria de qualquer alarme para estar seguro que hoje, por volta das 7h, haveria de acordar, dar uma vista de olhos nas redes sociais e nas notícias do dia, responder a dois ou três e-mails, pagar as contas e, a dada altura, depois de terminar essa meia dúzia de tarefas corriqueiras, me dedicaria ao acto sagrado de vir aqui escrever este texto que, dou-me agora conta, também ele exprime uma acção e um propósito rotineiro, ainda que pautados por 365 dias de intervalo. Não vos consigo explicar porque é que hoje, voltarei a passar aqui meia dúzia de vezes e, em todas elas, voltarei a ler este texto e em todas elas procederei a pequenas alterações ínfimas das quais nenhum de vós se dará conta nem lhes reconheceria sentido. Como talvez não vos conseguirei explicar porque é que, à semelhança de mais uma ou duas outra datas na minha vida (mas mais ainda que todas elas juntas), à efeméride pessoal do 2º de Janeiro se me aplica tão bem aquele verso do Sérgio Godinho que ele próprio define como “frase batida”. Mas consigo perceber, melhor que nunca, o quão abençoado foi a decisão de criar um blogue. De criar este blogue. Hoje, dou-me conta da importância desta figura e daquilo que ela representa. Ela representa um espaço livre, gratuito e ilimitado onde, qualquer pessoa com acesso on-line, pode estar em contacto com o mundo. E parece-me que a maior parte daqueles que a ela recorre não se deu conta do valor que esta ferramenta tem, da transformação profunda que ela inscreve no mundo e no capital democrático que ela representa (há afinal, uma diferença enorme entre viver num país livre e, vivendo num pais livre, ter à disposição canais onde, efectivamente, se possa partilhar e veicular aquilo que mais nos inspira ou preocupa). A relação entre sujeito comum e mundo mudou radicalmente e hoje, nenhum de nós está destinado a ser um mero espectador ou consumidor de conteúdos. O sujeito está no centro de toda esta dialéctica e deixou de ser apenas o destinatário  dos conteúdos mas também o seu autor, editor e publicação. E o valor de mercado do seu conteúdo é encontrado no preciso ponto que melhor definir o valor que conseguir acrescentar aos outros. Pela minha parte, fica aqui a garantia que jamais condicionarei o que quer que seja nesta página para que esse ponto fique algures acima de onde se encontra agora. Mas importa lembrar que, não fosse esse vosso reconhecimento, e a localização – não importa exactamente onde – desse tal ponto que define o meu valor (ou a falta dele) e eu jamais poderia viver de ideias ou projectos que, directa ou indirectamente, nasceram com este blogue. É por isso justo dizer que, se a minha vida mudou radicalmente porque há 5 anos iniciei este blogue, ela mudou na precisa medida daquilo que cada um de vós tornou possível. Por isso, se venho aqui menos vezes, se vos parece às vezes que esqueci esta página, essa aparência deve-se apenas ao pequeno detalhe que jamais virei aqui por outro motivo que não a minha vontade. Mas sempre que o fizer, será com a tesão e o vigor de sempre. Com a certeza eterna de que não estarei nunca focado em vos agradar (mas eternamente grato pelo vosso agrado)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

André pai, André filho

André pai, André filho

[pai e filho podem ser vistos aqui também]

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sem (muitas) palavras

Speechless

[esta publicação pode ser vista aqui e aqui]

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Em cada dez amigos meus

Antonio

nove querem ficar como o Antonio. Eu sou um deles

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Gosto tanto disto

I like this picture so much

Dela, da luz, dos pés descalços, do casaco e da feira onde me disse que o havia comprado


[esta publicação pode ser vista aqui também]

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cristina

Cristina

Como em qualquer projecto há sempre pelo menos duas formas (ou ideais tipo) de levar as coisas. Por gosto ou até à exaustão. E mesmo que houvesse optado pela segunda seria difícil que, em nenhuma situação, tivesse experimentado aquela sensação frustrante de pensar “gostava tanto de fazer esta foto”. Decidi-me pela primeira das opções o que, se por um lado promove a paixão pelo ofício como o motor de todo o projecto por outro... abre espaço ao custo de oportunidade. O irritante custo de pensar em todas as oportunidades que perdi de fotografar pessoas que gostaria que aqui estivessem. Pessoas que não fotografei porque deliberei que o projecto me devia servir a mim e não o seu preciso contrario e, naqueles dias como em tantos outros, havia sentenciado que a minha felicidade não passava por sair de casa com a máquina na mão. Claro que a equação para a minha felicidade pessoal mudou radicalmente no momento em que vi a Cristina. Por sorte, tinha acabado de passar por um casal de namorados a quem tinha expresso a minha surpresa pelo equipamento que utilizavam para fotografar e, com a lata do costume, voltei a eles e perguntei:
Importam-se que experimente a vossa lente com a Cristina?

[esta publicação pode ser vista aqui também]

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Provavelmente

A camisa oriental

A camisa de homem mais bonita que já fotografei

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Momento de uma noite de Verão

Maria

[esta publicação pode ser vista aqui também]

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Crepúsculo em Braga

Braga

[esta publicação pode ser vista aqui também]

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O velho e o lago

O velho e o lago

Quem me conhece bem sabe que não me limitei a tirar esta fotografia. Sabe que subi àquela rocha. Que arranjei alguém que me fotografasse no seu lugar. Que me fotografasse a mim e ao Ilija juntos, em amena cavaqueira, a tentar a sorte com os peixes que por ali havia, voltados para o lado albanês do lago. Na verdade não acho que o Ilija seja velho. Até porque a velhice, pelo menos até certa idade - qual instinto de sobrevivência - está sempre duas gerações à nossa frente, longe o suficiente para que nos possamos sentar descansados sem preocupações de maior. Porque não somos velhos nem novos, somos apenas o centro do nosso mundo e é com ele por referência que o que quer que viva ou ocorra neste planeta é alto, baixo, gordo, magro, feliz, triste, inteligente ou burro, clarividente, obtuso, estupidamente interessante ou anormalmente aborrecido. E o Ilija, apesar de técnica e cientificamente possível, dificilmente seria meu avô. E, podendo ele ser meu pai, dificilmente me referiria a ele como velho. Até porque os velhos, por definição, estão mais perto da morte e ninguém, tenha 20 ou 60 anos, se sente confortável a pensar na morte dos pais. E tenho, de facto, uma foto sozinho naquela rocha. E umas quantas com o Ilija. Por sorte tinha a Amanda perto, uma de quatro australianas com quem passei quatro dias e quatro noites porque nos conhecemos numa estação de serviço onde o táxi delas e o meu autocarro haviam cruzado itinerários. E a Amanda é uma fotógrafa do  %#&#ª§£. Na verdade, uma fotógrafa de moda do %#&#ª§£. O tipo de pessoa que nos garante uma dúzia de belos retratos para a posterioridade. E realmente, as fotografias, são a melhor memória para as vivências. E aquilo que eu guardo deste lago são quatro australianas, com quem depois de ter trocado e-mails num apeadeiro macedónio, me encontrei mais tarde para jantar e por quem me apaixonei. Parece um bocado estranho mas foi isso que aconteceu. Apaixonei-me por aquelas gajas. E com elas permaneci como se, naqueles quatro dias, houvesse ali uma espécie de irmandade. E uma delas, às vezes, me confidenciava algo sobre a outra, a mesma outra que umas horas depois me diz qualquer coisa sobre a “uma delas” do início da frase. E assim, principiava a sentir também que fazia parte daquele grupo. Que também eu compareceria na inauguração na casa nova da Karolina, em Melbourne. E acho que, de todas as semanas que passei a viajar este Verão, os dias que tive com estas gajas foram os mais bonitos que vivi. A sensação de encontrar alguém que simultaneamente conhecemos tão pouco e de quem aparentemente gostamos tanto é, talvez pela sua efemeridade, uma das mais bonitas que já senti. E há um momento bonito. Particularmente bonito. O da despedida. Momento que não fotografei. Nem a Amanda. Se bem que, para vos ser bem sincero, gostava de ter essa imagem gravada. Não que a minha figura de calções de banho, t-shirt pendurada à cintura, chapéu de palha e sandálias de plástico merecesse aqui pertencer. Ou a das quatro, sentadas ao pequeno-almoço, a insistirem para me juntar a elas na Grécia. Gostava de ter esse momento guardado porque sei que estava feliz. Porque deixava um momento bonito mas suspeitava já que me metia noutro. Num carro com quatro holandeses com quem fui à boleia até Belgrado e que me pouparam demasiadas horas de comboio e autocarro. Quatro holandeses que estavam boquiabertos pelos detalhes que a minha memória havia retido sobre o Euro 88 (a única competição internacional de selecções que a Holanda ganhou algum dia em futebol). Quatro holandeses que tinham um concurso devidamente organizado com 256 concorrentes, desde cantoras e actrizes conhecidas de meio mundo, uma ou outra artista porno, umas quantas celebridades holandesas e até a namorada de um deles. O concurso que elegeria ali, naquele dia e naquele carro, a “gaja mais boa do mundo”. Diz-me o Laurens: “José, não leves a mal, não podes participar nesta eleição porque não conheces as holandesas, não seria justo”. “Claro que não” respondo, contendo o riso para não beliscar o tom sério com que o meu novo amigo me comunica tão solene decisão. A minha opinião ficou registada como o 5º e último factor de desempate mas não consegui gerar lobby suficiente para evitar que a Mónica Belluci fosse eliminada nos quartos-de-final. Mas vivi tudo isto há mais de um mês. Por algum motivo achei que ainda não tinha chegado o dia de escrever o texto sem o qual dificilmente publicaria esta fotografia. Por algum motivo foi preciso meter-me num comboio em Braga de volta a Lisboa e ter sete senhoras deliciosas (seguramente mais velhas que o Ilija mas a quem sou incapaz de chamar “velhas”) a meterem-se comigo para que, quando uma delas se refere a mim como “o senhor” pensar:
%£&#-$@, mas esta velha trata-me por “senhor”? (afinal sou capaz...)
Como se ficasse ofendido, na irracionalidade mais pura, por uma suposta velha, na sua qualidade de senhora educada, me fazer sentir menos novo. E aí, pela indelicadeza do meu pensamento, me lembrei do Ilija. Porque o nome deste post estava já traçado desde o momento que o fotografei. Lembrei-me do Ilija, da Karolina, da Amanda, da Aneta, da Tash, do Bas, do Chiel, do Kosse e do Laurens. E de muitos outros também. E pensei. Esta senhora amorosa a quem acabei de chamar velha lembrou-me de uma outra indelicadeza que tenho de cometer. A de chamar velho ao Ilija. Aquele senhor simpático que conheci com as miúdas por quem me apaixonei num jantar à beira-lago. O Ilija, o senhor que estava em Kaneo, o ponto mais bonito do Lago Ohrid, naquela rocha em frente à casa onde nasceu a sua mulher. A sua mulher, aquela senhora que me havia acenado da janela. A mãe do rapaz que, há dois dias, me escreveu a pedir as fotos que eu e a Amanda havíamos feito ao seu pai

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Miss Sarajevo

Miss Sarajevo


[outras partes desta mesma sequência aparecem por aqui]

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Calanque de Sugiton

Katie

Quando apanhamos um comboio em Santa Apolónia de mochila às costas, boné na cabeça e os ténis (que nos pareceram) mais confortáveis não estamos, por uma meia dúzia de bons motivos, com muitas expectativas de alimentar uma página deste género. E, na verdade, o único motivo pelo qual parei em Marselha foi a hora, cujo adiantar, não me permitia chegar a tempo de ficar numa daquelas localidades que personificam o imaginário típico do  sul de França. Marselha teria sido o elo mais fraco de uma viagem cujos propósitos estavam perspectivados dois meridianos à frente. Mas Marselha é (não me ocorre nada melhor que assegurar, a pés juntos, que é genuinamente) linda. Poderão chamar-lhe suja, chunga ou simplesmente perigosa (e, ao que parece, há boa dose de estatísticas a suportar, por ordem crescente, cada uma destas acusações). Mas é linda. Percebo que carros de matrícula francesa com ocupantes que a muitos outros franceses lhes custaria apelidar de compatriotas, a acelerar por ruas estreitas, em plena madrugada, à mesma velocidade com que entro na A5 não serão, entre outras coisas, o melhor dos cartões de visitas para a actual Capital Europeia da Cultura. Mas há algo ali que ultrapassa tudo isso. E, por mais que custe a muito francês admiti-lo, parte da receita decorre precisamente da sua aura magrebina. E da sua natureza mediterrânica. Que é o mesmo que dizer que os Calanques, aquelas formações calcárias profundas e escarpadas parcialmente submergidas pelo mar, são das coisas mais bonitas que vi em toda a minha vida. Tanto me fascinaram que, quando me fui em direcção a Belgrado, tinha por seguro que ali haveria de regressar na volta. Mas claro está. Algo mais me prendeu ali. A Claire, a Anne-Sophie, uma canadiana cujo nome não recordo agora, o Andrew, a Sophia, a Natalie e a Katie a quem, a meio da tarde, já toda o grupo havia elogiado o fato de banho. E se ainda me impacta mais esta foto que a do casal de regresso ao seu veleiro (e eu gosto mesmo muito daquele casal) é curioso como para mim, esta bela imagem da Katie, é apenas uma amostra de todos outros momentos que tenho guardados (uns valentes megabytes e critérios visuais abaixo desta imagem) do dia quente nos Calanques e do jantar que o sucedeu. Porque, quando me meti num vagão em Santa Apolónia, eram esses momentos que buscava. Os tais que privilegiavam o trato familiar com aparentes desconhecidos a quem nos dirigimos como velhos amigos que propriamente méritos estéticos. A Katie foi, por assim dizer, uma espécie de surpresa. Uma bela surpresa


[a Katie pode ser vista aqui também]

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Hydra

Hydra

Vi-os ao longe. Se hesitei? Claro que hesitei (imaginem a minha figura a esbracejar e gritar). Mas gritei. Bem alto. Como me ouviam mas não me conseguiam perceber lá acabaram por se acercar. E disse-lhes, sem grandes explicações, que lhes queria tirar uma fotografia. “Uma grande fotografia” assegurei-lhes categoricamente. Tempo para lhes passar o cartão com o meu e-mail e fazer meia dúzia de fotos. Perdão... grandes fotos

[cinco da tal meia dúzia de fotos podem ser vistas aqui]

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Esta foi por uma boa causa

Esta foi por uma boa causa

Provavelmente, mais que qualquer outra pessoa no mundo, acredito que cada uma das fotografias que aqui aparece é – pelo simples facto de aqui estar – uma boa causa. O que acho é que há um ou dois punhados delas que têm um sentido ainda maior. Uma causa (ainda) mais bonita. Uma causa que o sorriso da Matilde serve nesta imagem. Como servem os sorrisos da Carolina e do Miguel. Os sorrisos da Sónia, da Sofia e do Manel. E os da Clara e do Gonçalo.




[esta publicação pode ser vista aqui também]